O CEO da FAP Online, Eduardo Milaneli, esteve recentemente na Espanha e voltou com importantes reflexões. Ao observar uma cultura que valoriza profundamente a saúde e a segurança no trabalho, podemos destacar como nós, brasileiros, temos chance de evoluir ao adotar práticas similares que priorizem a prevenção e o cuidado com as pessoas.

Canteiro de obras em Valencia, 2025

Durante algumas semanas em solo espanhol, com a visita a diversas cidades espanholas, uma coisa chama muita atenção: o ritmo constante de obras de restauração em patrimônios históricos. A sensação é de que o país está sempre em obras. Com edifícios centenários que exigem manutenção contínua, é comum ver andaimes em prédios históricos, ruas interditadas com sinalização clara e profissionais trabalhando com uma organização que impressiona.

Na cidade de Sevilha, pôde-se observar o trabalho de um autônomo que realizava uma manutenção com seu próprio furgão. Ele montou sozinho um andaime com dupla trava de segurança em cada etapa de subida, verificou os cabos de aço e seguiu rigorosamente um padrão técnico, tudo sem a presença de um engenheiro de segurança ou supervisor. É um profissionalismo admirável.

Andaimes montados para obra em Sevilha, 2025

A forma como, até os pequenos empreendedores, atuam é de se espelhar: cada um com seu furgão adaptado, com equipamentos organizados e soluções inteligentes para atender diversos tipos de obra, com foco em segurança, eficiência e cuidado com o espaço público.

Essa situação se repete em diversas cidades, isso mostra que a cultura da prevenção não depende do tamanho da obra, nem de fiscalização constante, mas sim de uma mentalidade sólida. Segurança não é burocracia. É prática diária.

No Brasil, ainda estamos distantes dessa realidade. Em muitos canteiros de pequeno e médio porte, o improviso é extremamente comum. A análise de risco, quando existe, é meramente documental. O uso de EPIs é negligenciado e a escolha das ferramentas se dá mais por conveniência ou economia do que por adequação técnica.

A cultura da prevenção, que deveria ser o ponto de partida, infelizmente ainda é vista como um custo e não como um investimento.

Na Espanha, o sistema de prevenção de acidentes é estruturado e abrangente, regido pela Lei de Prevenção de Riscos Laborais (Lei 31/95), que atribui às empresas a responsabilidade direta pela segurança dos trabalhadores. Isso inclui desde a análise prévia das atividades até a formação contínua dos profissionais.

O Instituto Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho (INSST), por sua vez, atua como órgão técnico e científico, promovendo estudos, políticas públicas e fiscalização. Além disso, os trabalhadores têm participação ativa no processo preventivo, inclusive com representação formal em comitês internos.

Outro ponto importante é o equilíbrio entre sanções e incentivos: Empresas que descumprem a legislação estão sujeitas a penalidades administrativas, civis e até criminais, dependendo da gravidade. Por outro lado, há incentivos concretos para aquelas que se destacam na prevenção, como redução de custos com seguros e reconhecimento público.

Sagrada Família em Barcelona, 2025

Mas talvez o aspecto mais interessante esteja no cuidado com a estética da segurança. As obras são visualmente organizadas e harmoniosas. A sinalização é clara, redundante e pensada para ser compreendida por todos. É o chamado de “sinalização de dupla segurança”: se algo falhar, há sempre uma camada extra de proteção. Uma prática que raramente vemos por aqui.

Podemos e devemos nos inspirar. E para isso, deixamos três pilares que considero essenciais para a construção de uma cultura real de prevenção de acidentes de trabalho no Brasil:

  1. Análise do trabalho a ser executado:
    Antes de qualquer atividade, é essencial entender o que será feito, quais são os riscos e como mitigá-los. Não se trata de preencher um formulário, mas de planejar com responsabilidade.
  2. Uso de ferramentas e máquinas adequadas:
    É comum vermos improvisos perigosos no Brasil, como ferramentas adaptadas ou máquinas sem manutenção. A ferramenta certa, calibrada e segura é parte central da prevenção.
  3. EPIs como extensão do corpo do trabalhador:
    O Equipamento de Proteção Individual não pode ser tratado como uma imposição, mas como parte natural da execução do trabalho. Ele precisa ser utilizado corretamente e ser adequado à tarefa.

No Brasil, precisamos ampliar o debate e tornar a prevenção parte da cultura cotidiana. Não basta ter normas; é preciso que elas façam sentido para quem está no campo. Investir em segurança não é apenas evitar multas ou acidentes. É garantir produtividade, confiança e dignidade.