As despesas previdenciárias continuam a avançar. Segundo aprovação do Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS) para a proposta orçamentária de 2027 do Ministério da Previdência, com cálculos baseados no referencial técnico da Secretaria de Orçamento Federal (SOF), do Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO), as despesas obrigatórias devem sair de R$1,136 trilhão projetado para 2026 para R$1,224 trilhão em 2027 uma alta de 7,7%. Só a rubrica de benefícios providenciarias deve avançar 8,6%, passando de R$1,074 trilhão para R$1,166 trilhão. Esses números reforçam uma discussão nacional sobre o crescimento dos gastos com benefícios e a sustentabilidade do sistema previdenciário.
Fonte: Valor Econômico
Para as empresas, porém, esse cenário levanta outra questão importante: quanto o adoecimento e os afastamentos realmente custam para a organização? A resposta vai muito além do valor pago em assistência médica. Quando um trabalhador adoece, existe uma cadeia de impactos que envolve absenteísmo, afastamentos, benefícios previdenciários, produtividade, saúde ocupacional e, dependendo da situação, repercussões diretas sobre os indicadores previdenciários da própria empresa. É justamente por isso que temas como NTEP, RAT e FAP não deveriam ser analisados isoladamente.
- O afastamento não termina quando o colaborador chega ao INSS
Dentro das organizações, as informações relacionadas à saúde dos trabalhadores costumam estar distribuídas entre áreas diferentes. O RH acompanha ausências e afastamentos, enquanto a saúde ocupacional acompanha exames e condições
clínicas. Já a segurança do trabalho gerencia riscos ocupacionais, a folha administra reflexos trabalhistas e previdenciários, e o financeiro acompanha os custos.
O problema surge quando cada uma dessas informações é analisada separadamente. Um afastamento pode ser apenas o evento visível de uma situação muito maior e é aí que mora o risco que menos empresas monitoram de perto.
- NTEP, RAT e FAP: por que esses três indicadores conversam entre si
Quando determinadas doenças apresentam relação estatística com a atividade econômica da empresa, o Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP) pode contribuir para a caracterização da natureza ocupacional daquele benefício.
Na prática, o NTEP cruza estatisticamente o CID da doença com o CNAE da atividade econômica: um afastamento inicialmente lançado como “doença comum” pode ser reclassificado como acidentário pelo próprio sistema da Previdência, muitas vezes sem que exista emissão de CAT.
Essa reclassificação pode gerar desdobramentos trabalhistas e previdenciários, além de integrar o conjunto de informações consideradas na gestão do Fator Acidentário de Prevenção (FAP) o multiplicador que pode reduzir pela metade ou dobrar a alíquota do RAT paga sobre a folha de pagamento. Já explicamos essa mecânica com mais detalhe no artigo sobre planejamento de orçamento em SST. O ponto central aqui é outro: saúde, segurança, previdência e resultado financeiroestão muito mais conectados do que parecem.
- O custo do adoecimento precisa ser visto de forma integrada
Durante muitos anos, boa parte das discussões corporativas sobre saúde ficou concentrada no custo do plano de saúde: quanto aumentou a mensalidade, qual foi a sinistralidade, quanto será o reajuste. Essas perguntas continuam importantes, mas já não são suficientes.
Uma gestão mais estratégica precisa entender por que a população está adoecendo. Quais doenças apresentam maior crescimento? Quais grupos concentram mais afastamentos? Quais condições provocam maior número de dias perdidos? Existem áreas, cargos ou atividades com recorrência de determinados diagnósticos? Há relação entre os riscos ocupacionais identificados e os afastamentos registrados?
Quando essas informações começam a ser conectadas, a empresa deixa de enxergar apenas eventos isolados e passa a compreender o comportamento real da sua população inclusive quadros como os recordes de afastamento por saúde mental registrados nos últimos anos.
- Imagine cruzar todas essas informações
Agora imagine uma organização capaz de analisar, de forma integrada:
- utilização do plano de saúde;
- internações e doenças crônicas;
- saúde mental;
- doenças musculoesqueléticas;
- absenteísmo, atestados e afastamentos;
- exames ocupacionais e riscos presentes no ambiente de trabalho;
- benefícios previdenciários e ocorrências relacionadas ao NTEP;
- indicadores relacionados ao RAT e ao FAP.
A discussão muda completamente. Em vez de perguntar apenas “quanto estamos gastando?”, a empresa passa a perguntar “o que está a provocar esse custo e onde podemos agir antes que ele aumente?”. Essa mudança é fundamental: com dados estruturados, é possível identificar tendências, encontrar concentrações de risco e direcionar programas de prevenção para os pontos que realmente precisam de intervenção como já mostramos no artigo sobre o custo invisível dos riscos psicossociais para o caixa corporativo.
- Dados de SST também são dados de negócio
O crescimento da despesa previdenciária brasileira reforça uma tendência que as empresas não podem ignorar: o impacto econômico do adoecimento será uma discussão cada vez mais relevante. E isso torna a gestão de Saúde e Segurança do Trabalho ainda mais estratégica não apenas porque existem obrigações legais a cumprir, mas porque informações de SST ajudam a responder perguntas diretamente ligadas à eficiência da operação.
Quanto o absenteísmo representa em dias perdidos? Quais doenças mais afastam? Onde existe recorrência? Quais riscos precisam de maior atenção? Quanto determinados eventos podem impactar os indicadores previdenciários da
empresa? Onde uma intervenção preventiva pode evitar custos futuros? São perguntas que exigem integração entre pessoas, processos e dados o mesmo raciocínio que já aplicamos ao falar sobre o custo da não segurança no trabalho.
- Prevenir também é uma decisão financeira
A gestão moderna de SST precisa ir além da reação ao afastamento. O objetivo deve ser identificar sinais antes que eles se transformem em eventos recorrentes, afastamentos prolongados ou impactos previdenciários. É nesse ponto que tecnologia, dados e inteligência passam a ter um papel decisivo.
Ao integrar informações de saúde ocupacional, segurança, absenteísmo e indicadores previdenciários, a empresa consegue construir uma visão mais completa sobre sua população. Dessa forma, transforma dados que antes estavam dispersos em informação para tomada de decisão. Em um cenário no qual os gastos previdenciários já ultrapassam a casa de R$1 trilhão e seguem em trajetória de alta, entender as causas do adoecimento dentro das organizações deixa de ser apenas uma questão de SST. É uma questão de gestão, prevenção e sustentabilidade financeira.
- A FAP Online conecta dados para transformar SST em estratégia
Com uma gestão integrada, indicadores de saúde ocupacional, afastamentos, riscos, absenteísmo, FAP e outras informações relevantes deixam de existir em silos. A tecnologia permite enxergar padrões, antecipar riscos e apoiar decisões mais assertivas para proteger pessoas e também os resultados da organização.
Porque conhecer o custo do adoecimento é importante. Agir sobre suas causas é ainda mais.
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